D’Carlos. Um homem com uma história.

Por Cesar Romão

 

Em Jeremoabo, no povoado de Romão, na nossa querida Bahia, um garoto teve como seu primeiro brinquedo um cabo de vassoura… Não um cabo de vassoura comum… um cabo de vassoura que se transformava em um cavalo veloz e quase único com seu cavaleiro-menino, o pequeno Joãzito, que mantinha seu sorriso lindo escovando os dentes com frutinha de juá.

 

O mesmo menino que, anos mais tarde, era João Vieira de Andrade na calçada de Jeremoabo e brincava com gaiola de passarinho em frente a uma alfaiataria, até o dia em que Mestre Abílio, alfaiate renomado, o levou para trabalhar em seu prestigiado estabelecimento.

O menino tinha um dos ingredientes dos campeões: era comprometido. Quando o gerador parava, ele sentava debaixo do poste de luz da rua para terminar o chuleado, o caseado e guarnecer.

Ali era uma terra onde alfaiate era Mestre, e ele tinha este sonho de mestre ser também. Fez muita calça de graça para mostrar que era bom no que fazia, que o digam Toco Carlito e Dalci.

Tinha um relógio especial: fazia 10 calças por dia. Ali mesmo naquela cidade onde era seu castelo e aprendia a cada dia, com João Mari Quinha, profundas noções de carpintaria.

 

Chegou o momento em que seu pai mandou buscá-lo para seguir para São Paulo: foram seis dias no pau-de-arara, mas para quem busca seu sonho, pau-de-arara é carruagem imperial.

 

Já pisou na capital de São Paulo com febre amarela… foi para o bairro de Água Funda com sua idade aumentada em dois anos para servir o exército: chegou com quinze transformados em dezessete, que entendia ser civismo puro.

 

Soldado 1292, às quartas e aos sábados encontrava tempo para fazer calças, que o digam Adolfo e Moura, um sergipano e outro baiano.

 

Tinha ideias avançadas pro seu tempo. Não demorou pra da Av. Ipiranga seguir pra Rua Gabriel Monteiro da Silva, e já aos vinte anos tinha pinta das fotos de James Dean. Fascinou e fez profunda e sincera amizade com pessoas que também o queriam muito bem, como Cauby Peixoto, nosso Frank Sinatra, para quem confeccionou c entenas de ternos… Ainda hoje é cantado em verso e prosa nas entrevistas de Cauby, nas principais emissoras e revistas do Brasil, como Veja, por exemplo. Chacrinha tinha por ele carinho imenso, era peça principal em seu concorrido júri na TV. Clodovil via nele uma inspiração. Com o Rei Roberto Carlos, teve instantes de amizade inesquecíveis.

O cinema não poderia se esquecer dele. O produtor e diretor de mais de cem filmes, David Cardoso, vestia suas roupas nas telas… E, no filme O Dia do Gato, lá está ele.

 

A praça de grandes encontros era o Hotel Normandi. Joãzito  nasceu em Jeremoabo… o estilista D’Carlos, na cidade de São Paulo.

 

Voltou a Jeremoabo como celebridade. Pode até andar de pijamas por sua cidade, e as pessoas lhe atribuem o mesmo carinho e reconhecimento.

 

Aquele menino que brincava de abrir e fechar o olho na calçada simples da cidade natal, para ver o Sol mudar de cor… que galopava em seu cavalo de brinquedo… venceu com trabalho justo, honesto, e pela história que construiu.

 

Tornou-se uma lenda viva, como estilista, mas continua um ser humano especial, que dá bons exemplos de vida.

 

Qualquer pessoa pode se tornar um sucesso como D’Carlos, mas outro D’Carlos será muito difícil, porque como ele, só ele.

Um mito que, antes de ser mito, foi menino, foi jovem, foi adulto, foi experiente, foi amigo e foi pai… Mito não nasce: constrói uma história que vira história no coração de outras pessoas.

 

D’Carlos. Um homem com uma história.

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