Biplomado

10 abr Biplomado

O pensador de humorista Barão de Itararé bem situou: “Diploma não encurta a orelha de ninguém. Noel Rosa compôs: “Samba é um privilégio / Ninguém aprende samba no colégio”. E o ator John Randolph bateu forte: “O tolo formado é mais tolo que o ignorante”. De fato: tem gente com dois, três diplomas, fala vários idiomas, mas nada diz. De um modo geral, médicos, advogados, engenheiros, não sabem escrever. Não é o caso de quem tem talento. Aí o diploma completa. Dá verniz ao talentoso que sabe usar a boneca. Você sabe: “boneca” é aquele pequeno chumaço de algodão envolvido em pano para puxar brilho.

Por exemplo, o estilista, designer de moda D’CARLOS – João Vieira de Andrade aprendeu o ofício de alfaiate ainda menino, com 11 anos, lá na sua cidade natal – Jerebuabo, Bahia. É do tempo do ferro a carvão, soprado atrás para eliminar as cinzas e atiçar o fogo. E em feliz decisão, já em São Paulo, diplomou-se em 1957 na Escola de Corte Estilo Moderno, do diretor, professor Paulo Emílio Puglielli. Um dia o mestre lhe disse: “Você está começando por onde eu terminei”.

É claro que o curso muito acrescentou ao dom do D’CARLOS, deixando a dúvida: o diploma o valorizou ou foi ele que valorizou o diploma ? Comprovo: de certa feita, enverguei um blaizer de sua arte, mas não encontrei lenço que combinasse. Recorri a ele e como também não tinha, escolheu uma gravata de seda, ideal, dobrou e a colocou no meu bolso. Diz: essa escola se aprende no colégio ?

Precisamos criar a palavra “biplomado” para o “malandro” que com criatividade vai alem de qualquer diploma. Não malandro de morro ou de favela ou de praia carioca. Nem malandro de capoeira. É malandro capaz de captar, ver, sobrever, alcançar, entender, capiscar, notar, penetrar, sentir, pressentir, com engenho para praticar essa arte no momento preciso, seja costurando, fazendo um feijão, na entrega à mulher amada, conquistando amigos, governando o país, jogando sinuca ou golfe.

Se você é dotado dessa bossa para ser um designer de moda, será sortudo se merecer bater um papo com D’CARLOS e esteja preparado para topar com uma franqueza abalizada, contundente. Mas se quer apenas vestir-se bem, vá com ele e não precisa encher o peito na hora da prova. D’CARLOS se encarregará de colocar duas respirações no pano: a sua e a dele.

AGUINALDO LOYO BECHELLI

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