Artesãos de linha e agulha

10 abr Artesãos de linha e agulha

Por Renata Fiore

Depois de ficar esquecida por um tempo, em função da modernização e da indústria, a profissão alfaiate revive nos paletós alinhados dos empresários e artistas brasileiros

As máquinas ainda são de pedal, mas quase ninguém toca nelas, as linhas são organizadas por cores, as fichas dos clientes têm pedaços dos tecidos usados para a confecção dos ternos alinhados. No passado, a profissão vestia desde garotos até senhores. Hoje, ainda com os dedais na mão, os alfaiates sobrevivem alinhavando as roupas de empresários, industriais, políticos e artistas do país.

Mas o que leva um homem a se render a esse ritual da roupa sob medida? Para Leonardo Calomeo, que tem mais de 30 anos na profissão, a procura está atrelada à qualidade do feitio e a variedade de tecidos. “A pessoa sai da linha de montagem e entra na tradição. Nas lojas só é possível, por exemplo, comprar um costume com três botões. Aqui fazemos do jeito que o cliente quer e é isso que ele procura: exclusividade” diz.

A diferença? 80 % de um terno confeccionado em uma alfaiataria é feito à mão. Com um corte impecável, esses profissionais atravessaram décadas se adequando às tendências. “Fazemos o clássico temperado” afirma Calomeu, que trouxe para o ateliê que já foi de seu pai a inovação dos tecidos de fibra natural, como os de bambu. Mas não é só o estilo que move o cliente. Segundo José Cozin, um dos mais antigos alfaiates de São Paulo, a maioria dos homens que procura esse serviço é porque precisa de uma roupa adequada ao corpo. “Algumas imperfeições, como ombros desproporcionais, são facilmente corrigidas com um traje sob medida”.

Espera pelos detalhes
Disposto a esperar, pelo menos, 30 dias para a confecção do terno, o escritor e conferencista Cesar Romão afirma que o homem consegue se expressar através da roupa que veste. “Todo terno precisa ser uma extensão do corpo e imagem. É importante ser identificado por roupas personalizadas com tradição e requinte. Aliás, este tipo de produto é como vinho, precisa de tempo para se produzido e ficar ainda melhor”.

Os detalhes impressionam até os menos entendidos do assunto: tecido de primeira linha, de preferência inglês, ombros estruturados com algodão natural, corte e ajuste no corpo e não no manequim e nada de casas e botões falseados na manga. Se o caimento e o estilo chamam a atenção dos clientes vaidosos de um ateliê, o preço nem tanto. A confecção mais barata fica em torno de R$ 2.800,00. Em um alfaiate é possível encontrar tecidos com fios de ouro ou de diamante, entretela de crina de cavalo e botões de osso de javali, que conferem à roupa gordas cifras, chegando a R$ 90.000,00.

Mais baratas, porém com qualidade inferior, as roupas industrializadas também têm seu espaço, mas segundo Cozin os ternos nacionais deixam bastante a desejar. Já Calomeu afirma que esse tipo de produto é uma necessidade e atende ao público específico, mas as fábricas devem ter mais coerência na hora do corte e do caimento. “Afinal, o Lada também é importante”, brinca referindo-se ao modelo de carro russo.

A fidelidade é uma marca registrada de quem faz roupa sob medida. “Faço os ternos do pai, depois de algum tempo passo a fazer os dos filhos e, às vezes, até os netos já passaram por aqui”, conta Cozin, que desembarcou da cidade de Duartina, interior de São Paulo, em 1964 e mantém o mesmo ateliê no centro da capital paulista até hoje. Por lá, 30 roupas são confeccionadas por mês, onde passam nomes como Chiquinho Scarpa e as famílias dos grandes banqueiros da cidade.

Há 50 anos na profissão, João Vieira de Andrade se veste de D´ Carlos e entra em seu ateliê, no Brooklin. Cheio de opinião e colecionador dos moldes das roupas que já fez para Chacrinha, Cauby Peixoto, José Victor Oliva, Chico Buarque, Roberto Carlos, família Civita e Clodovil, o mestre, como seus clientes o chamam, diz que o terno é a segunda pele de um homem e que elegância é jeito de ser. “Não adianta se vestir com uma roupa feita sob medida, mas falar, sentar e se comportar como um abrutalhado. Você pode ser elegante fazendo a barba no banheiro”.

Aliado da postura, principalmente nos palcos, a roupa sob medida sempre fez parte das apresentações de Cauby Peixoto. Dono de um estilo peculiar e, como ele próprio diz: “só mudo se for para melhor”, o cantor possui mais de mil ternos confeccionados por D´Carlos. “Eu sempre fiz minhas roupas em alfaiates, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. Quando coloco um costume bem feito recebo elogios da platéia. As pessoas são muito exigentes. Não parecem, mas são! Procuro estar elegante para qualquer tipo de público e a roupa sob medida me proporciona isso”.

Com mais de mil clientes, D´Carlos comenta que os homens gostam do modismo, como paletós mais justos, mas preferem o clássico para não errar, afinal, “a última moda é o que a pessoa fica bem para usar”. As grandes ombreiras que as mulheres tanto detestam? O alfaiate comenta que elas diminuíram, mas continuam estruturando os ombros dos elegantes trajes. “Sem essa sustentação a roupa não tem caimento. O terno fica murcho”. Entre outros tantos detalhes, segundo ele, a roupa sob media é invencível porque o homem não corre o risco de errar. “O cliente escolhe e nós o ajudamos. Aqui pode tudo desde que se tenha bom gosto”, opina.

Alfaiataria na medida certa

Tecidos: sempre 100% lã extrafina. Muitos pensam que esse pano serve para o inverno, mas ele se adequa a temperatura e é indispensável.

Ternos no calor: “sofrimento” para qualquer homem, no calor a dica é usar cores claras e tons pastéis, como cinza e bege com meio forro no paletó.

Tênis: Calomeo afirma que o uso é liberado para aqueles que têm estilo para comportar essa ousadia. Já para Cozin e D´Carlos, um homem elegante jamais deve usar.

Combinação perfeita: para um terno feito sob medida, o ideal é uma camisa 100% algodão, sem transparências ou brilhos, e a gravata de seda tradicional.

Listras: cuidado! Evite colocar mais de uma peça listrada, por exemplo, o costume e a camisa. Dê preferências para as mais clássicas e discretas.

Paletó: tenha o cuidado de sempre cobrir o quadril. Para ter certeza de que a altura é a ideal fique em pé e com os braços paralelos ao corpo. O tamanho correto é aquele que você consegue pegar na barra do paletó sem precisar se curvar ou erguer a mão.

Calças: Segundo Cozin, as calças com pregas pedem barra italiana e as retas, barra lisa. Nunca use barra lisa com calças com pregas.

Pecado: Calomeo afirma: “terno listrado com camisa verde limão e gravata do Mickey, jamais!”. Também evite estampas, pois são muito perigosas.

Primordiais: Além do corte perfeito, todo homem deve ter no armário um costume cinza e outro azul marinho, essas cores são coringas.

Acessórios: Abotoaduras só devem ser usadas em ocasiões especiais. Lenços são um charme a mais, coloque-o de forma com que pareça uma flor, esse é o modo correto de usá-lo, mas procure combinar com a gravata.

Lavagem: O paletó de um terno deve ser lavado uma vez por ano e a seco. Dê preferência a boas tinturarias e nunca leve em uma lavanderia express.

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